A grande atração da noite era o retorno de Alcindo Martha de Freitas aos gramados brasileiros, depois de um longo período no futebol mexicano. Pelos relatos e fotos da época, o "Bugre" estava longe da forma ideal. Por isso acabou sentindo bastante a falta de ritmo no primeiro tempo (quando Tarciso desperdiçou um pênalti), mas pediu para permanecer na segunda etapa, quando marcou, aos 4 minutos, superando o goleiro La Volpe que até então fazia grande partida.
"O gol
Iura
e Tadeu Ricci tabelaram, aos 4 minutos, na intermediária do San Lorenzo
de Almagro. A jogada foi cortada por Nicolau. A bola ficou com Alcindo
que chutou rápido, na dividida com Sanz, tomando efeito, encobrindo o
goleiro La Volpe e caindo dentro do gol." (Folha da Tarde - 24 de março de 1977)
"No
intervalo, Alcindo garantiu que voltaria para a etapa final. E cumpriu a
palavra: voltou para marcar seu gol. Eram 4 minutos do segundo tempo
quando o árbitro marcou uma falta nas proximidades da área do San
Lorenzo. Alcindo caminhou para ajeitar a bola. Agora não havia Tarciso
para atrapalhar. Alcindo fez a cobrança com força, a bola bateu na
barreira, subiu e tomou efeito, impedindo qualquer tentativa de defesa
de La Volpe" (Zero Hora - 24 de março de 1977)
TELÊ: "O Alcindo jogou mais como um
prêmio para a torcida. A sua estréia talvez tenha sido prematura porque
ele ainda não está em condições. Mas fez o gol e isso é importante.
Sabemos que ele tem condições técnicas, mas precisa estar em forma. E
para quem estava parado há tanto tempo, foi muito bem"
ALCINDO: " Eu queria apenas ter mais umas chances. Estava gostando dos dois ponteiros, mas tinha dificuldade porque ainda estou fora de forma. Como minha condição de jogo deve demorar quase um mês, vou me preparar bem. Quero perder peso em excesso e treinarpois só participei de meio coletivo e estava há três meses parado."
"Para Fischer, ex-jogador do Botafogo do Rio de Janeiro e Vitória da Bahia, o Grêmio está jogando um bom futebol, "mas se quiser ser campeão terá que melhorar muito". Hoje para ele deu tudo certo, porque o juiz ajudou principalmente para a sua defesa. O Alcindo teve muita sorte, pois a bola que ele chutou bateu em Sanz e acabou deslocando o goleiro La Volpe, que ia certo no lance" (Folha da Tarde - 24 de março de 1977)
Depois de 3 turnos e 33 jogos, Grêmio e Inter finalmente começaram a decidir o Campeonato Gaúcho de 1977 em 25 de setembro. Começaram e terminaram, porque o tricolor tinha a vantagem de precisar apenas de dois dos quatro pontos disputados nas finais. Bastavam dois empates ou uma simples vitória para garantir a título. E o jejum foi quebrado com uma vitória logo no primeiro jogo da final, disputado no Olímpico.
Mas não foi fácil.
O segundo tempo foi de pura tensão e pouco futebol, até que a torcida invadiu o gramado minutos antes do termino do jogo. Formou-se uma confusão generalizada, onde o juiz levou um voadora de um torcedor, Escurinho agrediu o torcedor e acabou sendo surrado pela massa, e o Inter deixou o campo. O juiz Luis Torres aguardou que Brigada retomasse a ordem, esperou 30 minutos pelos colorados e decretou o Grêmio como vencedor. Todo esse cenário só postergou a entrega formal da taça, mas a festa já tinha se iniciado, contando inclusive com a presença de Gilberto Gil no vestiário.
Zero Hora
"Grêmio campeão com o gol de André Os oito anos de sofrimento do Grêmio terminaram com o time de Telê
Santana vencendo o Inter por 1 a 0, ontem no estádio Olímpico. Mas a
festa que a torcida do Grêmio esperava fazer não pôde ser como ela
queria. O jogo foi interrompido aos 42 minutos do segundo tempo, houve
invasão de campo e o Inter acabou se retirando do estádio, depois de ter
jogadores agredidos, alegando que não havia condições de segurança para
a partida chegar a seu final.
O jogo não teve a movimentação
técnica de outros Gre-Nais, nem chegou a ter jogadas, empolgantes, com
freqüência. Teve duas características, ditadas pelo gol de André. O
Inter começou mais cauteloso, fazendo questão de prender a bola e só
indo à frente com segurança. O Grêmio mostrava mais força ofensiva,
embora no início sentisse a marcação por pressão do adversário. Como maior preocupação defensiva Gardel em cima de André (Marinho sobrava), Vacaria
matava Tarciso com a ajuda de Caçapava, enquanto o resto marcava por
setor. Mesmo assim o Grêmio levava ligeira vantagem tática, pois a
movimentação e postura de seus jogadores era melhor. Tanto que ia à
frente com mais perigo do que o adversário. No entanto, o primeiro lance
perigoso de gol só foi ocorrer aos 19 minutos. Caçapava demorou para
sair com a bola da defesa, Éder recebeu um passe de Iura e chutou forte
para Benitez fazer boa defesa.
Aos 22 minutos o Grêmio teve uma
grande chance de abrir o marcador, quando Gardel colocou a mão na bola
dentro da área, em jogada que sua defesa tinha dominado, assustado com a
proximidade de André e Éder. O juiz assinalou, os jogadores do Inter
reclamaram muito, fizeram catimba, mas
Luis Torres confirmou o pênalti. Tarciso, encarregado da cobrança,
chutou forte, mas seu pé bateu no chão e a bola desviou para fora, pelo
lado esquerdo de Benitez, que saltara para o canto direito. O
pênalti perdido deu moral ao Inter, sua torcida começou a gritar. Mas o
Grêmio era melhor em campo e numa jogada rápida, acabou fazendo seu
gol. Aos 42 minutos, Tarciso bateu uma falta pela direita, a bola veio
para Tadeu que fez um "corta-luz" levando o seu marcador. Iura, com a
bola, atraiu a marcação de Caçapava e Gardel e deu para o lado esquerdo
onde entrava André. O centroavante ainda trocou de pé e chutou forte,
bem colocado, no ângulo direito de Benitez que pulou inutilmente. Aí o
trabalho do Grêmio foi só esperar terminar o primeiro tempo. Para o segundo, em desvantagem, o Internacional voltou mais
ambicioso, enquanto era a vez do Grêmio prender a bola, segurar o
resultado. Buscando mais força, Gainete tirou Bereta (Batista foi para
lateral), entrando Jair e Santos saiu para Dario entrar. O Inter foi
cercando, Telê colocou Alcindo no lugar de André, que se lesionara na
comemoração do gol. Depois foi a vez de Wilson substituir Iúra o Grêmio foi dando cada vez mais espaço ao adversário, enquanto esperava o tempo passar. O
clima do jogo ficou muito nervoso alguns jogadores já deixavam a bola
para ir com mais violência no adversário. Mas Luis Torres ainda
controlava as ações. Éder já tirava bola em sua área pelo lado direito, o
Grêmio ia recuando, tentando jogar em contra-ataques, uma tática que
sempre deu os melhores resultados contra mesmo adversário. A defesa do
Inter avançava, procurando se juntar ao ataque. O tempo ia passando,
entrou nos 15 minutos finais, quando começou, pouco a pouco, a invasão
de campo pelos torcedores. Primeiro os do Grêmio, eufóricos com a
vitória. E a invasão de campo aconteceu porque a torcida achou que a
partida estava terminada, quando o juiz paralisou uma jogada aos 42
minutos. Houve invasão geral, alguns jogadores do Inter brigaram com
torcedores, acabou abandonando o estádio a partida teve de ser suspensa.
O Grêmio fez sua festa, só não pode complementá-la, embora a euforia
dos torcedores fosse justa, o time
jogou melhor, merecia sair vitorioso. Teve a melhor campanha do
campeonato, foi o melhor no Gre-Nal da decisão. Agora a questão se
transfere para os tribunais, o Grêmio com a garantia de ter vencido
dentro de campo, enquanto o Inter desesperado vai tentar mudar o
resultado no TJD. E só se consola em ter prejudicado a grande
comemoração do adversário. (Zero Hora - 26/09/2012)
"A partir daí a confusão foi enorme. Escurinho e Cláudio, que também entrara em campo, conversavam com Luís Torres quandoeste foi agredido por um torcedor. Escuro foi atrás do torcedor, e agrediu o desconhecido. Depois apanhou de vários torcedores e teve que sair do Olímpico direto para o hospital, com o nariz fraturado, a face cortada, e suspeita de traumatismo craniano" (Zero Hora - 26 de setembro de 1977)
"De repente, de bermudas desfiadas, alpargatas, camiseta desenhada, cabelos encaracolados à moda africana, lá estava Gilberto Gil no vestiário do Grêmio. Os olhos estavam completamente vermelhos - Gil chorava com o título conquistado pelo Grêmio - mas o astral estava ótimo." (Zero Hora - 26 de setembro de 1977)
Correio do Povo
"O CAMPEÃO DE CAMPO. HÁ OUTRO?
Escrevo antes de saver o que fez a Federação com a súmula do Torres. Já existe um campeão, o Grêmio. Ganhou quatro gre-nais, empatou um, perdeu apenas dois. O campeão passa por essa contabilidade. No Rio Grande do Sul não existe outra forma de avaliação. Imagine-se um campeão que tivesse o número de vitória e empates que teve o Internacional. Não poderia ser o campeão porque teria ganho cinco pontos e o Grêmio nove." (Ruy Carlos Ostermann - Correio do Povo - 27 de setembro de 1977)
Folha da Tarde
"O Gre-nal não chegou a terminar com futebol, pois quando faltavam seis minutos para o seu encerramento, parte da sofrida e emocionada torcida do Grêmio invadiu o gramado. Não houve condições a partir desse incidente, até que os policiais militares tirassem os torcedores do campo, do jogo continuar. Mas quando isso ocorreu, o time e a delegação do Inter já haviam abandonado as dependências do Olímpico. Alguns jogadores do Inter, como Escurinho e Luisinho, tinha sido espancados por torcedores do Grêmio.
Sob a alegação de que não havia garantias para seus jogadores, os dirigentes do Inter optaram pelo abandono do campo. No entanto, a precipitada atitude da direção do Inter não influenciou na decisão do árbitro Luís Torres. Ao perceber que os policiais militares tinham adquirido o controle sobre a torcida, deu um prazo de meia hora para que o time dirigido por Carlos Gainete voltasse ao gramado. O do Grêmio permaneceu, batendo bola, sob os aplausos e gritos emocionados de seus torcedores.
Quando encerrou-se o prazo determinado, Luis Torres proclamou o Grêmio como vencedor do Gre-Nal pelo escorede 1 a 0, que já tinha sido obtido durante a partida, através de André" (Folha da Tarde - 26 de setembro de 1977)
"Luís Torres fez o que pôde, para dirigir o Gre-Nal mais catimbado do ano. Socos, pontapés, cotoveladas, sempre longe das vistas do apitador. Mas Torres teve um erro capital, aos 8 minutos: Santos, inexplicavelmente, empurrou André, dentro da área. O árbitro não marcou nada. Havia muita gente em sua frente. Isso não justifica. Sua sorte foi que o Grêmio acabou fazendo um gol." (Ataíde Ferreira - Folha da Tarde - 26 de setembro de 1977)
Grêmio 1x0 Inter
GRÊMIO: Corbo, Eurico, Cassiá, Oberdan e Ladinho; Vitor Hugo, Tadeu Ricci e Iúra (Vilson); Tarciso, André (Alcindo) e Éder. Técnico: Telê Santana
INTER: Benitez, Beretta (Jair), Gardel, Marinho e Vacaria, Caçapava, Batista e Escurinho, Valdomiro, Luisinho e Santos (Dario). Técnico: Gainete
Data: 25 de setembro de 1977, domingo Local: Estádio Olímpico, em Porto Alegre - RS Público: 57.186 pagantes Renda: CR$ 1.642.960,00 Arbitragem: Luis Torres Auxiliares: Adão Alipio Soares e Paulo Serafim. Cartões Amarelos: Marinho, Dario, Corbo e Cassiá Gol: André Catimba, aos 42 minutos do primeiro tempo