Tiago Vaz merece todos os elogios pelo seu trabalho, mas sua pesquisa não o autoriza a sair dando "chutes" e "palpites" sobre as origens dos clubes desta capital. Como por exemplo, na questão da suposta recusa pelo Grêmio dos irmãos Poppe:
"Entendo que eles sequer procuraram o Grêmio para jogar, pois sabiam tratar-se de um clube fechado. O Inter nasce com valores sólidos, é difícil acreditar que fosse criado por causa de uma rejeição"
Entender ele pode entender o que quiser. Agora, é impossível afirmar categoricamente se houve ou não esta rejeição. Faltam dados, fatos, documentos, e etc...
Mas também pouco me importa que os colorados reescrevam a história do seu clube. Se quiserem afirmar que o clube nasceu tão logo a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, tudo bem. Se acharem mais legal pensar que os irmãos Poppe trouxeram o futebol para o Brasil antes de Charles Miller, também não me importo.
Ocorre que a Zero Hora fez um uso completamente equivocado disso tudo. A começar pelo editor Ricardo Stefanelli, que achou que seu repórter Leandro Behs estava fazendo uma grande descoberta ao achar texto já disponíveis na internet desde janeiro. O título é pretensioso "A nova história do Inter". Menos mal que os dois tiveram a felicidade (ou a sorte) de usar a palavra "versão" em seus textos. Nas versões, me incomoda um ponto em especial, o qual transcrevo:

Versão Atual: A motivação da criação do novo clube foi a rejeição pelo Grêmio, um dos principais clubes de futebol da época, e por outras diversas associações de tiro, de remo e de tênis. Não foram aceitos como sócios porque eram gente desconhecida, sem nome na cidade, recém-chegados a Porto Alegre, e todas as agremiações eram fechadas (ou direcionadas para determinadas etnias, como a alemã).
Descoberta: Os Poppe tiveram a idéia de criar um novo clube (algo comum naquele começo de Século 20) por idealismo, para popularizar o esporte, e jamais teriam procurado o Grêmio – que era uma entidade fechada, voltada para a comunidade alemã.
Tais versões ignoram fatos notórios sobre a história do Grêmio. Como por exemplo, o maior responsável pela fundação do clube, o dono da bola, paulista de Sorocaba, Cândido Dias da Silva.
Ignora também a presença de sobrenomes de origem portuguesa entre os fundadores do clube, como por exemplo: Francisco França Júnior, Joaquim F. Ribeiro (vice-presidente), Álvaro Brochado.
Ignora ainda a presença de descendentes de italianos, como Alfredo Cattaneo, que se tornou sócio na primeira (e rígida) seleção de novos associados, ainda em 1903 conforme relata Edison Pires em seu livro "História do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense Passado e Presente de um Grande Clube" (imagem abaixo):

Pior foi ver pessoas de grande prestígio no futebol repetir este erro.
Mauro Beting: "O clube da família italiana Poppe que deixou São Paulo e Rio para fazer a vida em Porto Alegre, em 1909. Dizem que tentaram jogar bola no clube alemão – e não teriam deixado; tentaram jogar tênis, remar, dar tiro – também não deixaram. Então, juntaram um time de estudantes e comerciários para fazer um clube que deixasse entrar gente de todas as cores e credos. Dois negros assinaram a ata"
Ibsen Pinheiro: "Como também nunca consegui confirmar minha teoria preferida, a de que o Internacional nasceu subversivo e revolucionário em 1909 para reviver o fantasma sessentão de Karl Marx e novamente assombrar a Europa e o Mundo. Nunca achei nenhuma prova e por isso nunca publiquei como tese acadêmica, embora mais consistente do que a falecida dissidência. Afinal, a minha hipótese tinha a seu favor ao menos dois fortes indícios: o nome e a cor do indigitado.
Graças ao brilhante trabalho de Tiago Vaz, tenho que ficar com a lógica histórica, a de que a cidade de 1909 já não se satisfazia com dois clubes étnicos, surgidos fortes e lindos no mesmo dia para ocupar em dupla os aprazíveis grounds do Moinhos de Vento até os anos 40
o Internacional ecumênico nasceu com a vocação universal do Clube do Povo e sabe que o Colorado, por ser igualitário, não é melhor do que os outros"
Até tú, Ibsen? Autor de um belíssimo texto em homenagem ao centenário do Grêmio em 2003. As afirmações de Ibsen são facilmente desmentidas por Arlei Sander Damo, no seu livro "Futebol e Identidade Social":

"Infelizmente, para historiadores e curiosos, as atas das reuniões dos primeiros três anos do Inter desapareceram, como já reconhece em sua abertura o livro 2, de 1912."
Aliás, toda esta questão sobre a fundação dos clubes é melhor explicado no artigo de Dienstmann:
Os primeiros clubes do futebol brasileiro, no início do Século 20, foram todos fundados num mesmo modelo: por jovens que apenas queriam jogar futebol. Na verdade, já jogavam, e a criação de um clube era apenas o modo de organizar e oficializar essa atividade.
Não é por acaso que o primeiro do país, o Rio Grande, teve exatos 22 fundadores, em 1900 – isto é, dois times, para “partidas internas”, “matchs-trainings”. No Grêmio, em 1903, foram 33. No Inter, 40, em 1909. Os fundadores-sócios eram também dirigentes, jogadores, limpadores do campo. Ninguém pensava em campeonatos (que não existiam), em títulos, em estádios, rivalidades. A garotada só queria correr atrás da bola.
Com a entrada de novos sócios-jogadores, porém, os antigos fundadores podiam perder lugar na equipe.
Em Porto Alegre só existiam dois clubes de futebol em 1909: o Fuss Ball (dos ciclistas da Blitz) e o Grêmio. Se aceitassem novos sócios-jogadores, alguém perderia lugar no time. A renovação se dava com a aposentadoria futebolística, geralmente ao final dos estudos e começo de um emprego. Tentar sustentar que o Inter foi fundado por rapazes recusados pelo Grêmio é uma meia-verdade, e afirmar que o Inter é dissidência do Grêmio chega a ser besteira.
Da indumentária ao vocabulário, passando pelo material de jogo, tudo era importado da Europa. Com pouco mais de uma década do fim da escravatura no país, seria absurdo pensar que, criado meio século antes nas melhores escolas da Inglaterra, o futebol fosse esporte “popular” no Brasil.
Os fundadores do Inter eram pequenos comerciantes, comerciários, funcionários públicos, intelectuais, estudantes, como Napoleão Gonçalves de Oliveira, funcionário do Arquivo Público; Miguel Ballvê, da firma Oppenheim & Cia.; Alfredo Wetternich, do Tribunal de Contas; Luiz Portella, do Banco da Província; Horácio Carvalho, da companhia de energia, e Tertuliano Gonçalves, redator do jornal “O Elmo”.
O Grêmio teve a mesma origem, seis anos antes, em 1903, criado por jovens de origem alemã, portuguesa, italiana, empregados especialmente das casas comerciais Pimenta, Pavão e Tigre, e da Farmácia Caleya. (Cláudio Dienstmann, Zero Hora, 31/03/2009)
Mesma informação é trazida por David Coimbra, em coluna publicada em dezembro de 2008:
"Essa onda migratória foi importante. O grande Sérgio da Costa Franco conta que um viajante norte-americano descreveu a Capital em 1880 como “uma alegre mistura de Alemanha e Brasil”. Por volta de 1900, mais de 20% dos 70 mil habitantes da cidade eram alemães. E os alemães é que tinham essa tendência associativa que depois contaminou as outras etnias.
É basicamente por causa dos alemães, portanto, que tantos clubes foram fundados em Porto Alegre entre os séculos 19 e 20. O Grêmio não era exatamente um clube de alemães. Entre seus 33 fundadores havia alemães, italianos, portugueses e brasileiros que os imigrantes denominavam de “pêlos-duros”. Alemão, alemão mesmo era o Fuss-Ball, clube fundado no mesmo dia que o Grêmio. E, como só existiam os dois na cidade, o jeito era um jogar contra o outro." (David Coimbra, Zero Hora, 14/12/2008)
Obviamente que não teria nada de errado em se criar uma associação voltada para a comunidade alemã, mas acontece que não é o caso. O problema é que este seria o ponto de partida para acusações mais graves, ainda que levianas:

Eu ficaria bem menos incomodado se os colorados, ao reescreverem sua história, não falseassem fatos notórios sobre a história do Grêmio.